Bridge the Cash #6 - Jogo do bicho, apostas e socos na boca

Sorte ou competência? Na vida e na bolsa, todo mundo tem um plano até ocorrer um fato exógeno incontrolável.

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Nota do editor: agora, Leonardo Pontes vai apresentar para você como a aleatoriedade faz, de uma forma ou outra, parte dos investimentos. Abro aqui neste link também a ação do ano, segundo o próprio Leonardo Pontes.

Olá!

Em uma das minhas viagens de volta à Belém durante a época da faculdade, lá pelos idos de 1999, tive um sonho no mínimo curioso: jogava futebol em um terreno baldio com vários outros vizinhos quando, por motivo qualquer, irrompia uma briga. 

A confusão era grande e alguns dos garotos na pelada partiram para cima de mim. E por essas coisas que só acontecem em sonho, mesmo com eles desferindo socos desesperadamente, eu, em uma mistura de Muhammad Ali com Anderson Silva, conseguia me esquivar e derrubar cada um deles com apenas um golpe.

Se você já foi à Belém, sabe que o jogo do bicho é bastante comum por lá, com os “apontadores” (aqueles que anotam seu palpite) nas suas banquetas espalhados por toda a cidade. 

O resultado do jogo do bicho é inclusive noticiado no rádio logo após a sua “apuração”, por falta de uma palavra melhor. 

O prêmio é 18 vezes o valor apostado na modalidade mais famosa, ou seja, se você apostar R$ 10, ganhará R$ 180 caso seu bicho seja o sorteado. É como dizem por aí: é proibido, mas se quiser, pode.

Assim, após contar o ocorrido durante a noite para a minha tia, ela não teve dúvida:

“Brigando assim, vai dar galo”, tascou.

Após o almoço, todos nos reunimos ao redor do rádio:

“E no primeiro prêmio, número 6249! Dezena 49, grupo 13, GALO!”.

O irmão caçula, antes mesmo do locutor anunciar o bicho, já começou a comemorar, olhos arregalados, sorriso aberto, estendendo a mão e me parabenizando:

“Valeeeeeu, Léo!”

Todos ficamos, claro, muito felizes: quem não quer um bom dinheirinho extra? Mas qual foi realmente meu mérito, que inclusive levou meu irmão a me parabenizar pelo prêmio, se tudo que eu tive foi sorte?
 

O maior cassino do mundo

Esses dias foi noticiado que a Bovespa ganhou mais 900 mil CPFs durante a pandemia, e agora se aproxima de quase três milhões de investidores. 

Até aqui, não vejo problema algum: cada vez mais, com os juros baixos, as pessoas precisarão diversificar a forma que investem seu dinheiro. 

Nada mais natural, portanto, que tentem aprofundar seus conhecimentos sobre renda variável, estudando modelos de negócios de companhias, finanças, etc. 

Já fico menos animado, entretanto, quando vejo as expectativas de algumas pessoas que abordam a bolsa como se fosse um cassino e querem ficar ricas na semana que vem.

Os mercados financeiros têm suas estrelas que começaram a sua carreira com jogos de azar, sendo Ed Thorp o mais notável entre eles. 

Ele escreveu um livro em 1962 chamado Beat the Dealer, que ensinava os mais diversos apostadores a vencer no jogo Blackjack ou Vinte-e-um contando cartas. 

O impacto foi tão absurdo que alguns leitores entravam nos cassinos com o livro embaixo do braço e ficavam pesquisando o que fazer enquanto o croupier aguardava a sua decisão.

O ponto é que Thorp é um matemático brilhante, que contribuiu inclusive com Claude Shannon, o pai da Teoria da Informação. 

Ou seja, apesar de considerar o mercado financeiro como “o maior cassino do mundo”, ele continuou a fazer o que fazia nas mesas de cartas: só “apostava” quando as probabilidades estavam a seu favor.

Não por coincidência, dois professores da FGV e USP realizaram um estudo que mostrou que apenas 1,1% dos day traders do mini-futuro de Ibovespa ganham mais que um salário mínimo: ao analisar 1.551 indivíduos que realizaram day trade por mais de 300 dias, apenas 17 ganharam mais que um salário mínimo, com alta volatilidade, com apenas três ganhando ao redor de US$ 300 por dia na média. 

Ou seja, quem encara suas finanças como uma grande aposta, tem grandes chances de ter o mesmo destino dos viciados em jogo.

 

Você quer ter razão ou ganhar dinheiro?

Vamos imaginar uma situação hipotética na qual você investe seu dinheiro em uma ação na expectativa que, digamos, o preço do petróleo continue subindo. 

Suponhamos que você comprou essa ação por R$ 10 e queria vendê-la por R$ 20. Para sua surpresa, o preço do petróleo despenca, junto com o preço do papel que você comprou, que agora vale R$ 6.

Vendo esse preço tão baratinho, uma concorrente decide comprar a empresa na qual investiu, por R$ 12, ou seja, 100% de prêmio. 

Você ganhou, portanto, 20% no seu investimento. Você se considera: (a) um mago das finanças ou (b) teve tanta sorte que vai até apostar no galo?

Os mercados financeiros, como você sabe, nunca têm uma resposta simples como a do exemplo acima. 

Especialmente em um período curto de tempo, é bastante difícil separar sorte de perícia. 

O cenário é ainda mais complexo: mesmo alguém bastante habilidoso pode sofrer uma sequência de reveses e ser obrigado a se retirar do mercado. Ninguém prometeu uma vida justa quando nascemos, não é verdade?

O que resta, portanto, se não é pedir aos céus uma maré de sorte, que pelo menos a deusa Fortuna nos permita não ser tão azarados. 

Ainda assim, pouco adianta colocar toda a culpa na sorte ou na falta dela. Os maiores campeões de pôquer, um jogo que requer diferentes aptidões e que também tem um forte componente de aleatoriedade, sabem que a sorte vem e vai. 

Não é sobre as cartas que você recebe, mas como joga cada mão.
 

Use proteção

Sabendo que desastres acontecem, você não pode ser um tolo de apostar todas as suas fichas em um único cavalo: por mais que você esteja convencido da sua tese, tenha sempre em mente que existe a possibilidade de você estar errado. 

Nessa hora, você não pode correr o risco de quebrar, ou seja, se existe um risco de ruína em qualquer investimento que você faça, repense o tamanho de suas posições ou diversifique de maneira que o cenário adverso permita que você perca pouco.

Afinal, lembre-se de que a sua vida de investimentos terá várias rodadas, e você precisa estar vivo para poder jogar a próxima. 

O melhor caminho para isso é podendo alocar capital em várias alternativas com expectativa de retorno positivo, o que, infelizmente para milhões de brasileiros, desclassifica o jogo do bicho: como são 25 bichos e o retorno é de 18 vezes, cada real apostado tem uma expectativa de 18/25 = R$ 0,72.

Inclusive, essa capacidade de sempre permanecer vivo para o próximo round é que faz os Stuhlbergers, os Buffetts, os Simons da vida. 

Por essas ironias do destino, Jim Simons, fundador do que talvez seja o melhor fundo da história usando somente algoritmos, o Medallion, já declarou que no começo da carreira teve muita sorte, pois o que faziam no início do fundo não era tão diferente assim do que usar um desses sinais de trading, tais como RSI ou MACD. 

Esse pontapé inicial fez com que sua criação desse mais de 70% de retorno ao ano por 20 anos, entre 1994 e 2014.

A mensagem aos milhares novos de CPFs que estão chegando: sejam bem-vindos! Vocês acabam de entrar em um ambiente bastante dinâmico, intelectualmente desafiador e extremamente competitivo. 

O mercado financeiro exigirá um aprendizado constante, não somente sobre seus diferentes aspectos, mas especialmente sobre você mesmo: como você reage quando o mercado vai contra a sua posição? 

Ou ainda: como você se coloca em uma situação na qual seu patrimônio estará protegido independentemente dos movimentos dos mercados?

É a questão que nos persegue desde o primeiro dia: como ganhar dinheiro com o risco sob controle. 

A resposta, que era bem mais fácil com a taxa básica de juros acima de 20%, vem se complicando ao longo dos últimos anos.

Montar um plano robusto de investimentos ou de trading, portanto, vai exigir que você se cerque de boas informações, ferramentas adequadas, e um autoconhecimento crescente. 

Vale dizer, entretanto, como respondeu Mike Tyson com sua delicadeza peculiar ao ser questionado sobre o fato de um adversário afirmar ter um plano para derrotá-lo, “todo mundo tem um plano até levar um soco na boca”

Portanto, o que você precisa responder, todo santo dia, é quantos socos na boca o seu plano aguenta. Acredite: conseguir se esquivar de todos os socos quando se briga constantemente, só em sonho mesmo. Ou com muita sorte.

Leonardo Pontes

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