Bridge the Cash #5 - A guerra infinita

O constante desenvolvimento é o maior desafio para você: para evoluir sempre, viva a “anti-biblioteca”

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Nota do editor: nas próximas linhas, Leonardo Pontes vai mostrar para você a importância de sempre aprender.

Olá!

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos travaram acirrada disputa tecnológica com a União Soviética. 

Com a meta de desenvolver uma rede de comunicações capaz de armazenar dados e resistir a uma destruição parcial, Robert Kahn e Vinton Cerf criaram o protocolo TCP/IP, a base da internet como conhecemos hoje.

O início justamente durante o conflito que marcou a segunda metade do século passado talvez tenha sido um presságio: as pessoas passam dias guerreando na internet. 

O menu é vasto, de política a futebol, se o famoso furou a quarentena, se a blogueira ofendeu alguém ou se o vestido é azul ou dourado.

E se você entrou nas redes sociais durante a última semana, deve ter acompanhado a polêmica mais recente: Thammy Gretchen estrelando a campanha de Dia dos Pais da Natura.

A mais nova arma no arsenal dos guerrilheiros do teclado é o “cancelamento”. Caso você não esteja familiarizado com o termo, a ideia aqui é: se você não gostou da atitude de determinada pessoa ou companhia, então este ente recebe como punição o seu desaparecimento da sociedade. “Enviem-no ao deserto!”, gritam.

Pode-se iniciar, por exemplo, uma pressão sobre todos os patrocinadores para que encerrem o relacionamento, ou forçar uma empresa a demitir por uma fala ou um gesto, mesmo que tal ato tenha ocorrido fora do ambiente de trabalho.

O problema com o cancelamento é que ele é tão eficaz quanto varrer sujeira para baixo do tapete, o equivalente a “vou fugir de casa e você nunca mais vai me ver” de crianças de cinco anos. 

Afinal, ele remove um dos componentes mais importantes de qualquer processo de evolução e aprendizado: o erro.
 

Aprendendo a aprender

Se você já tentou fazer algo novo para mudar sua vida, cometeu alguns erros invariavelmente. 

E se você teve a oportunidade de continuar apesar deles, você aprendeu a evitá-los e, mais importante, ficou mais sábio no caminho.

Como você pode desconfiar, a ciência do aprendizado é extremamente complexa, abrangendo diferentes especialidades, tais como biologia do cérebro, técnicas de estudo e memorização, tempo de prática, e até mesmo as crenças que o indivíduo possui sobre si mesmo. 

O ótimo livro “Mindset: A nova psicologia do sucesso”, de Carol Dweck, ilustra como alguém aprende mais se apenas acreditar que tem as habilidades para tal.

Ainda assim, vale dizer que aprendemos mais com os nossos erros do que com os nossos acertos. 

Os cientistas acreditam que isso ocorre em razão da surpresa que sentimos ao descobrir que estávamos errados (seu cérebro acha que nunca vai errar? Quem ele pensa que é!?), o que termina por impressionar mais o cérebro e marcar a memória. 

Se você já ficou de fora de algum vestibular por apenas uma questão, provavelmente sonha com ela até hoje.
 

Com US$ 7 trilhões na conta eles te ouvem 

Imagine então a surpresa de alguém que pensou em cancelar a Natura ao notar que as ações da empresa valorizaram 17,9% somente no mês de julho?

Particularmente, afirmo que é muito difícil isolar apenas um fator para explicar o movimento de uma ação em um prazo tão curto de tempo. 

Se você pensar que existem milhares de investidores em um momento mais favorável para a bolsa como um todo, é provável que esses estejam acompanhando desde a integração da Natura com a Avon até as vendas online da empresa na pandemia.

E mesmo que consideremos apenas a campanha de Dia dos Pais, Thammy foi apenas um entre 14 pais escolhidos.

Porém, acredito que a campanha pelo menos toque em parte um movimento muito maior: ESG.

Essas três letras significam Ambiental, Social e Governança em inglês, e cada vez mais se referem a empresas que buscam transformar o mundo em um lugar melhor e mais sustentável.

O ESG vem ganhando força há pelo menos cinco anos, mas veio para as manchetes porque a Blackrock, maior gestora de fundos do planeta com mais de US$ 7 trilhões sob gestão, declarou que focaria em empresas com práticas sustentáveis para a construção de seu portfólio, afirmando que tais companhias são mais resilientes a crises.

Para efeito de comparação, apenas Estados Unidos e China tiveram PIB maior que US$ 7 trilhões em 2019, então todo mundo prestou atenção na conversa da Blackrock.

Pesquisa sobre o termo “ESG Investing” no Google no mundo. Fonte: Google Trends.

Na prática, tais empresas ESG têm uma melhor gestão de risco e estão focadas no longuíssimo prazo, assuntos caros aos melhores investidores do mundo. 

Imagino que ninguém goste de ser acordado de madrugada com um telefonema para ouvir que uma barragem rompeu, não é mesmo?

Para quem acompanha a Natura, a campanha não foi nenhuma grande surpresa. Internamente, a companhia já possui um direcionamento maior para o lado da sustentabilidade e diversidade, como pode atestar qualquer um que já tenha trabalhado com a companhia.

Além disso, existe uma pesquisa da Croma Consulting, que mostra que O Boticário, concorrente direto, era a marca mais lembrada em propagandas abordando a diversidade, empatada com a Samsung em segundo lugar, com Natura e Avon em terceiro.

Assim, acredito que talvez seja justamente isso que tenha acontecido com a Natura: o posicionamento a favor de toda diversidade já era adotado dentro da companhia. Portanto, fazia sentido colocar a campanha do Dia dos Pais no ar. 

Ou seja, não é que a Natura tenha montado a propaganda apenas pelo retorno financeiro que traria, porém a minha percepção é que teria pouco a perder financeiramente justamente porque este ser um posicionamento legítimo da empresa, menos notado externamente. Seria um caso raro de “talk the walk”.


Eclesiastes

Se existe alguém que estava #chateado, este alguém era Eclesiastes:

“O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. (...) Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor.”

Ou como diz o humorista Ary Toledo, não existe piada velha, o que existe é gente velha que conhece a piada. 

Você pode olhar para o ESG como Eclesiastes e achar que já viu tudo isso, ou pode entender que alguns assuntos precisam ser repetidos até termos maturidade para absorvê-los. 

Ou melhor ainda: as constantes iterações aprofundam o nosso conhecimento sobre assuntos antigos e trazem à tona novas nuances que podem se revelar importantes. 

Essa repetição aumenta a necessidade da prática, e a prática constante torna você mais proficiente no seu ofício, forçando, claro, você a cometer novos erros se quiser continuar aprendendo. É preciso errar para evoluir.

O “cancelamento” impede essa iteração e busca apenas as soluções e explicações fáceis. “A ação da Natura subiu em razão da campanha do Dia dos Pais com Thammy” é só mais um exemplo de tais explicações, as quais você ouve todo dia post factum para justificar o sobe e desce dos mercados.

Aprender sobre investimentos, claro, não é diferente: após horas e horas de prática e erros, você pode até tentar sistematizar seu conhecimento, mas talvez a maior dificuldade seja justamente como contextualizar tudo que aprendeu. 

Alguns afirmam que tal missão é inalcançável, e o conhecimento tácito termina por ser o grande prêmio. W. Timothy Gallwey, autor de “O Jogo Interior do Tênis” advoga mais para esse lado.

Já sou mais esperançoso: acredito que seja possível sistematizar o conhecimento adquirido ao longo da vida. 

“A história não se repete, mas rima”, disse Mark Twain. Mas para descobrir como você sabe o que não sabe, prepare-se para infinitas iterações que provavelmente perdurarão até o fim dos tempos. 

É como dizia Umberto Eco, com uma biblioteca pessoal de mais de 30 mil livros, chamada de “anti-biblioteca”: 

“Livros lidos são bem menos valiosos que livros não lidos. A biblioteca deve conter o tanto que você não sabe quanto seus recursos financeiros, taxas de hipoteca e o atual mercado imobiliário permitam que caiba nela. Você acumulará mais conhecimento e livros à medida que envelhece, e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras olharão para você ameaçadoramente. De fato, quanto mais você sabe, maiores são as filas de livros não lidos.”

Fuja das explicações fáceis sobre assuntos complexos em um mundo também cada vez mais complexo. Aprender a aprender é a verdadeira guerra sem fim. 

A internet, com seu conteúdo variado, pode ser a sua anti-biblioteca. Você sempre pode decidir focar em um assunto que pode mudar sua vida, seja diversidade, seja investimentos. 

Somente você pode saber qual é. E saiba também que todos os outros “não-lidos” estarão lá, olhando para você, aguardando a vez.

Um abraço,

Leonardo Pontes

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