Bridge the Cash #4 - O elefante que mora em cada um de nós

Hábitos saudáveis, na vida ou nos investimentos, se assemelham a construção de uma casa: para morar em uma mansão, você deve construí-la dia-a-dia.

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Nota do editor: nas próximas linhas, Leonardo Pontes vai incrivelmente te evidenciar como a soma de esforços diários são recompensadores ao longo de sua existência. E para os amantes do risco, dois ativos podem entregar uma tacada dupla trazendo 2 mil reais para cada 1 mil investidos. Os ativos estão disponíveis aqui.

Olá!

Logo que comecei a treinar com pesos na faculdade, ouvi de um amigo a lenda de que certo dia nasceu um bezerro perto de onde vivia Mílon de Crotona. O menino decidiu levantar o animal e carregá-lo em suas costas. 

No dia seguinte, Mílon retornou e fez o mesmo. E a partir daí, fazendo chuva ou sol, Mílon carregava o pequeno bezerro nas costas por volta de Crotona, todos os dias. 

À medida que o bezerro crescia, a força e a fome de Mílon aumentavam: sua dieta consistia em 10 kg de carne, 9 kg de pão e 10 litros de vinho. 

Até que depois de quatro anos, para espanto de todos, Mílon entra no estádio olímpico carregando um touro nas costas, logo antes de abatê-lo, assá-lo e comê-lo inteiro!

Meu amigo me contou a história para mostrar que o esforço consistente, executado dia após dia, tem o poder de trazer enormes resultados. 

Você já deve ter escutado outras formas de pregação do mesmo tema, com máximas do tipo “você é o que você come” ou “de grão em grão, a galinha enche o papo”. 

Para ficar mais bonito, cito Aristóteles: “excelência é um hábito”.
 

Centavo ou milhão?

Para evidenciar como o esforço constante é compensador, vou contar uma história hipotética para você. 

Digamos que você e seu amigo estão saindo de um bar, após algumas cervejas, de madrugada. Como não devem dirigir, decidem ir caminhando. 

De repente, vocês veem uma grande névoa saindo de um bueiro, de onde piscam raios, luzes e uma voz ecoa. 

Talvez corajosos por personalidade, talvez um pouco imprudentes por todo o teor alcóolico do sangue, decidem se aproximar. 

De dentro da fumaça sai um espírito de um velho, bem vestido, que faz uma proposta a vocês:

“Eu tenho aqui comigo uma mala de dinheiro com R$ 3 milhões e um centavo mágico, e estou disposto a dar os dois a vocês. O que você prefere: receber R$ 3 milhões agora ou um centavo que dobre de valor a cada dia pelos próximos 31 dias?”

Suponhamos que você estava com pressa e tenha aceitado os R$ 3 milhões, e seu amigo tenha decidido pegar o centavo para também ir logo embora dali. 

Assim, no dia 2, seu amigo passou a ter 2 centavos; no dia 3, agora possui 4 centavos, e assim sucessivamente. 

No dia 5, seu amigo tinha 16 centavos, e você tinha R$ 3 milhões. A sua vida era boa: dinheiro suficiente para fazer o que tivesse vontade, beber os vinhos mais caros e viajar para Paris ou Nova York. Sucesso total no Instagram.

Depois de 20 dias, seu amigo passou a ter apenas R$ 5.242,88. E aí algo mágico, conforme prometido pelo espírito, aconteceu: juros compostos. No dia 31, seu amigo terminou com R$ 10.737.418,24 – mais de três vezes o valor que você aceitou. 

Agora perceba a importância da consistência: foi apenas no dia 30 que ele passou à sua frente e apenas no último dia que ele destruiu você na ultramaratona. Assim como o bezerro passou a pesar mais de 400 quilos, o centavo virou mais de R$ 10 milhões.

Sabendo disso, vocês decidem passar mais uma vez pela mesma rua, para encontrar o espírito do velho.

“O que vocês querem?”, pergunta ele.

“O CENTAVO!”, vocês respondem, apressadamente, com um sorriso no rosto feito dois idiotas.

“Ah, sim, estava aguardando vocês. Olha, é o seguinte”, ele devolve, “aquele centavo mágico era o último. Mas eu tenho um outro aqui que funciona da seguinte maneira: ele tem 70% de chance de dobrar de valor ou 30% de chances de ficar do mesmo tamanho, a cada dia. Além disso, eu era banqueiro quando vivo e vou precisar de uma garantia: para mais R$ 3 milhões e este centavo probabilístico, eu vou ter que levar a alma de um de vocês dois ao final do 31º dia, que vou decidir no cara ou coroa e...”

Opa, alto lá: agora a decisão já não é tão simples. O que a alma velha do banqueiro introduziu foi uma questão comum a todos nós: risco e restrição de tempo. 

Afinal, você sabe que deve poupar e investir para tempos mais difíceis, mas ninguém consegue saber quando vai morrer, e, portanto, se seria melhor aproveitar mais a vida enquanto tem disposição para isso. 

E sempre há uma chance de seus investimentos não performarem como você espera, e toda a privação terá sido em vão. 

Nesse caso específico, a moeda probabilística proposta pelo banqueiro tem um valor esperado de

Ε[X]= 0,01 × 〖(70% × (1 + 100%) + 30% × (1 + 0%)) 〗^30= R$ 81.934,66

Ou seja, você precisaria de muita sorte para ficar apenas perto dos R$ 3 milhões. Se você rodar algumas simulações como as abaixo, incluindo a proposta original (em azul) e os R$ 3 milhões (em laranja), verá que o novo acordo não é bom:

Nunca assine nada sem ler, especialmente contrato de banco.
 

O dilema temporal

Mas não é esse, afinal, o grande conflito do ser humano? 

Quanto se deve aproveitar o presente (“só se vive uma vez”) e quanto vale a pena postergar prazeres imediatos em prol de um futuro mais glorioso (ou tranquilo), com toda a incerteza sobre o futuro que, por definição, é incerto? 

Ainda mais quando todos parecem estar se divertindo absurdamente nas redes sociais (uma sensação menos pervasiva agora na pandemia), como resistir à cervejinha e abrir um livro ou negar a sobremesa para dormir cedo e fazer a corrida matinal?

Certamente, não é uma resposta fácil: a questão ocupou algumas das melhores mentes, tais como Ovídio, Buda, Platão e Freud. 

No excelente “A Conquista da Felicidade” (o título original “The Happiness Hypothesis” faz mais jus ao conteúdo do livro, por considerar a felicidade como uma hipótese), de Jonathan Haidt, a dicotomia do ser é sintetizada em quatro divisões: mente vs. corpo; esquerdo vs. direito; novo vs. velho e controlado vs. automático. 

A metáfora mais apropriada, segundo o autor, seria a de um condutor sobre um elefante: ele controla as rédeas e pode indicar ao animal para onde virar, parar ou seguir adiante. 

Pode dar ordens, mas apenas quando o elefante não tem seus próprios desejos: se o elefante realmente quiser fazer alguma coisa, o condutor não é páreo para ele. Como disse Benjamin Franklin: “se a Paixão conduz, deixe a Razão segurar as rédeas”.

Para capturar esse comportamento não racional, desenvolveu-se todo um ramo chamado de Economia Comportamental, buscando explicar como decisões estão interligadas a questões emocionais.   

Esta vertente surge como complemento (ou oposição, como preferir) ao homo economicus, que sempre toma as decisões mais racionais, maximizando sua utilidade (“felicidade”). 

Ou seja, a Economia Comportamental busca entender o que o elefante faria, para continuar a metáfora acima, enquanto a teoria econômica neoclássica tradicional foi desenvolvida com base no comportamento do condutor. 

O assunto é tão promissor que já rendeu ao menos três prêmios Nobel em Economia: Daniel Kahneman em 2002, Robert J. Shiller em 2013 e, mais recentemente, Richard Thaler em 2017. Vale dizer que os analistas técnicos consideram a Economia Comportamental como a base teórica para a análise técnica.

Thaler escreveu “Nudge: Como Tomar Melhores Decisões Sobre Saúde, Dinheiro e Felicidade”, sobre como organizações (“empurrõezinhos”) podem ajudar as pessoas a fazerem melhores escolhas na vida. 

Por exemplo, colocar a maçã mais à disposição do que a barra de chocolate pode fazer você comer de maneira mais saudável.

Ou seja, talvez você precise incentivar o elefante a não errar. No caso de investimentos, pode significar ter uma imagem bem grande daquele apartamento que você quer comprar no fundo de tela do seu computador ou a foto da sua filha na carteira, para lembrar sempre que você está investindo dinheiro para a universidade que ela quer fazer um dia. 

Tudo para deixar o hábito cada vez mais forte. A tarefa fica mais fácil, claro, se você conseguir ser pago para fazer o que gosta ou ainda tomar gosto pelo processo de investir. 

Ray Dalio colocou brilhantemente em seu livro, “Princípios”: “faça sua paixão e seu trabalho ser um e o mesmo e faça isso com as pessoas com as quais você deseje estar”. É quase uma festa da firma todo dia.

Aliás, imagino que o Mílon de Crotona deva ter se divertido absurdamente carregando aquele bezerro nas costas, especialmente depois dos 10 litros de vinho por dia.

Assim como no centavo probabilístico, se as coisas por vezes não saírem como esperado no início, não significa que você deva desistir dos seus objetivos, mas sim que talvez você também deva entender que a jornada até lá tem a capacidade única de transformá-lo em alguém digno da recompensa final. 

É como bem lembra Jordan Peterson em “12 Regras para a Vida”: o sucesso é realmente um mistério. A virtude é que é inexplicável. 

Para falhar, você meramente precisa cultivar alguns maus hábitos e esperar sua vez. E uma vez que alguém tenha passado tempo suficiente cultivando maus hábitos e aguardando sua vez, essa pessoa fica menor. 

Muito do que poderia ter sido já se dissipou, e muito do "menos" em que se transformou agora é real. As coisas deterioram por si próprias, mas os pecados dos homens aceleram seu decaimento.

Só posso dizer, portanto: vá atrás do seu bezerro; vá buscar seu centavo mágico. Seja tudo que puder ser.

Um abraço,

Leonardo Pontes

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