Bridge the Cash #17 - As perguntas que movem o mundo

Leonardo Pontes Publicado em 22/01/2021
7 min
Após uma vida dedicada às finanças, virei fã de Bayes, Markovitz e Kelly. Eles tiveram o mérito de quantificar o bom senso, que apesar de menosprezado, reúne o conhecimento empírico de uma sociedade.

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Olá,

No começo desta semana, a grande notícia que dominou as redações de todos os jornais foi a aprovação da vacina do Butantan pela Anvisa. Deixando os vieses políticos de lado, a vacina foi considerada uma vitória da ciência e da tecnologia.

Eu, com meus próprios vieses, sou sempre suspeito para falar, mas sou um grande fã da ciência. O Renascentismo e o Iluminismo, cujas ideias centrais são as de que os seres humanos (e não apenas os deuses) são capazes de transformar o mundo em um lugar melhor, foram movimentos que fomentaram avanços tecnológicos que, em última análise, reduziram a pobreza da humanidade.

Por isso sou também um grande fã da tecnologia. A minha geração ainda era criança quando os computadores se popularizavam, vimos a internet surgir quando adolescentes, e agora temos a chance de assumir o leme para o próximo passo, a inteligência artificial (IA). Para aqueles ainda mais crentes, a IA pode até chegar à singularidade, quando as máquinas forem mais inteligentes que os seres humanos, entre 2030 e 2045.

Sou fã de vacinas. A varíola matou entre 300 e 500 milhões de pessoas no século XX, sendo erradicada em 1979 com a coordenação de vários países no mundo para imunizar seus povos. E as vacinas podem ser feitas mais rapidamente com o uso de tecnologias novas.

E após uma vida dedicada às finanças, também sou fã de Bayes, Markovitz e Kelly. Eles tiveram o mérito de quantificar o bom senso, que apesar de menosprezado, reúne o conhecimento empírico de uma sociedade. Ou, como dizem por aí, bom senso é igual a desodorante: quem mais precisa, não usa.

 

BAYES

O teorema de Bayes é um dos principais motores por trás de todo o avanço no aprendizado de máquina, ou machine learning. O teorema de Bayes é tão simples que é ensinado nas aulas introdutórias de probabilidade e estatística, e aí reside sua força. Resumidamente, o teorema permite que a probabilidade a priori, ou seja, a probabilidade daquilo que se deseja medir, seja alterada a partir de novas evidências, para se obter a probabilidade a posteriori.

Isso é genial: você deve mudar ou reforçar suas crenças a partir de novos dados.

O outro lado é que você precisa de fortes e numerosas evidências para mudar a probabilidade a priori.

Por exemplo, suponha que um teste de câncer seja 99% específico e 99% sensível, ou seja, 99% verdadeiros positivos (e 1% falso positivo, isto é, o exame aponta câncer quando a pessoa não tem câncer) e 99% verdadeiros positivos. Suponha também que 0,5% da população tem câncer. Se um indivíduo aleatório testar positivo, qual a probabilidade de ele realmente ter câncer? A resposta pode surpreender você: aproximadamente 33,2%.

Isso ocorre porque a probabilidade a priori indica que é muito mais provável ele não ter câncer (99,5%). Claro: uma pessoa que tem outros sintomas, como dores no corpo, etc. fornece outros dados que também aumentam ou diminuem essa probabilidade calculada.

Pergunta um: qual a probabilidade de uma pessoa com coronavírus não apresentar sintomas graves?

 

MARKOWITZ

Esse é mais famoso no mundo das finanças. Ele conseguiu colocar de uma forma matemática o que todo mundo já tem por intuição: quanto maior o risco percebido, maior deve ser o retorno esperado.

É como quando você oferecia R$50 ao seu irmão para ele não contar que você quebrou o vaso da sua mãe e ele pedia R$100: ele precisava ser compensado caso a sua mãe decidisse que ele não somente mentiu, mas também ajudou você a desovar os restos mortais do vaso de estimação que era da sua avó.

Assim, o mundo inteiro já sabe que não existe almoço grátis e que se o retorno percebido for alto demais, é necessário também saber onde está o risco. Aliás, vale lembrar: os melhores investidores usualmente tomam conta do lado do risco e deixam o tempo cuidar dos retornos.

E, claro, a percepção de risco e retorno é altamente individual. Uma bola de futebol americano tem retorno zero na minha mão, e vale milhões quando está com o Tom Brady.

Pergunta dois: qual é o perfil de risco-retorno da nova vacina para você, sendo você (ou não) do grupo de risco? Isto é, quais os riscos da nova vacina?

 

KELLY

Suponha que em um investimento você ganha três vezes o valor colocado se der certo ou perde todo o dinheiro se der errado. O valor esperado é 50% x 3 – 50% x 0 = 1,50 para cada real investido, então você deveria investir a cada rodada, sempre.

Entretanto, a ruína é inevitável: cedo ou tarde, o investimento dará errado e você perderá seu capital.

O critério de Kelly indica quanto do seu capital você deve colocar a cada rodada para maximizar sua riqueza sem ir à bancarrota: 25%.

Kelly conseguiu quantificar o famoso “não coloque todos os seus ovos em uma cesta”: você sempre pode realocar seu capital de forma a diminuir a chance de dar errado e aumentar sua chance de dar certo.

Pergunta três: uma vez vacinado, é possível voltar atrás? Ou é apostar 100% do capital, o famoso all in?

 

A ÉTICA E A MORAL

Nem tudo pode ser resolvido com equações, ao menos por enquanto. Uma das questões que temos ainda pela frente é como retomar as atividades, sem colocar em risco a vida daqueles mais fragilizados.

Pergunta quatro: como você se sentiria sabendo que contaminou alguém, mesmo que acidentalmente, por não ter sido vacinado?

Essa questão, mais filosófica que as anteriores, cai no campo da moral e da ética. E talvez por isso mesmo seja mais difícil encontrar a resposta, já que envolve os seus próprios interesses e o interesse de entes queridos ou dos seus pares.

O caminho que por vezes é nebuloso e cheio de perguntas e dúvidas vai se desenhando a cada curva. Tentar entender a vida dos outros ajuda a esclarecer um pouco nossas próprias incertezas e inseguranças. A empatia, tão invocada atualmente, corta para os dois lados.

Como lembrou Einstein, “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. A ciência avança através daquilo que ainda não foi solucionado.

O conhecimento, portanto, assim como uma lanterna em uma névoa, tem mais valor quando ilumina. A ciência e a tecnologia continuarão a nos guiar.  

Um abraço,

Leonardo Pontes 

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