Bridge the Cash #14 - E se Maradona fosse um investidor?

Leonardo Pontes Publicado em 27/11/2020
6 min
A qualidade que admiramos em um jogador de futebol não é a mesma que buscamos em alguém para cuidar do nosso dinheiro.

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Eu tinha apenas 10 anos nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, quando o Brasil jogou contra a Argentina. Aos 35 minutos do segundo tempo, Maradona recebeu a bola no meio de campo, cercado por três marcadores. Rapidamente, fez uma finta e avançou em direção à grande área. Quatro marcadores brasileiros voltaram sua atenção para ele, tentando pará-lo. Então, Maradona enxergou o cabeludo Caniggia livre e quase caindo, por sorte ou competência, conseguiu tocar a bola por baixo das pernas de um dos zagueiros do Brasil.

Caniggia recebeu a bola de frente para o goleiro brasileiro Taffarel e, sem dificuldades, conseguiu driblá-lo com um toque rápido para a esquerda, chutando para estufar as redes.

Naquela partida, antes do gol, o Brasil tinha chutado três bolas na trave, e teve infinitas oportunidades de decidir sua classificação.

Mas a Argentina tinha Maradona. E isso bastou para derramar as lágrimas de milhões de brasileiros, eu entre um deles.

UM GÊNIO DA BOLA

Com a notícia de sua morte nesta semana, um dos principais adjetivos utilizados para descrever Maradona foi “gênio”, tal como em “gênios não morrem; viram lendas”.

O aclamado pela crítica, porém menos aplaudido pelo público, “Divine Fury: A History of Genius”, do historiador Darrin M. McMahon, narra como o conceito de gênio foi evoluindo ao longo da história.

Desde sua origem, a noção de gênio é quase religiosa e, como tal, está conectada não apenas com o super-humano e transcendente, mas também com a capacidade para violência, destruição, e o mal que todas as religiões precisam confrontar.

A própria palavra tem raiz latina. Para os romanos, o gênio era um espírito guardião, um deus que acompanhava os indivíduos por toda a sua vida, conectando-os ao divino.

Os gênios são escolhidos para revelar as maravilhas, sendo eles maravilhosos, um clarão de luz, com seu brilho servindo para iluminar o mistério sombrio que os rodeiam.

Se Maradona era gênio, e o gênio é um deus entre os homens, “La Mano de Dios” jamais poderia ter dono mais apropriado.

DOIS GÊNIOS DAS FINANÇAS

Ao ver Maradona brincar com uma bola, era impossível não pensar que deuses o tinham transformado em um super-humano. 

A intimidade que possuía com o objeto de seu ofício nos encantava e surpreendia, porque, em seus pés, tudo aquilo parecia facílimo.

Não é assim com todos aqueles que chamamos de gênios? Uma inegável criatividade e surpreendente habilidade de execução?

Nas devidas proporções, existem os investidores que também são chamados de gênios. Warren Buffet e Jim Simmons (de muitos) encabeçam a minha lista.

Curiosamente, aqueles que são chamados de gênios no mercado financeiro fazem questão de demonstrar toda a sua disciplina, diligência e resiliência para enfrentar os diferentes cenários que se apresentam ao longo de décadas de profissão.

Deixam bem claro que suas habilidades foram adquiridas, jamais oferecidas pelos céus: você nunca verá um investidor experiente dizer que possui um talento natural.

Até porque, enquanto a carreira de um jogador de futebol está terminando aos 35 anos, nessa idade os melhores investidores estão se aprimorando, podendo atingir seu pico muito anos mais tarde. Jim Simons, por exemplo, só começou a investir seriamente a partir dos 40 anos. Buffet conquistou 99,7% da sua fortuna após o seu aniversário de 52 anos.

Ou seja, os melhores do mundo em finanças sabem que o tempo joga a seu favor, e quanto mais tempo eles têm, mais buscam aprender.

São mundos muito diferentes, os do futebol e investimentos. Em comum, possuem a imprevisibilidade, a força do acaso, especialmente no curto prazo: as três bolas que batem na trave e não entram podem eliminar uma seleção.

Um investidor, entretanto, sabe que existe uma boa chance de três posições (ou mais) darem errado e ele não se coloca em uma situação em que possa ir à ruína caso esse cenário se materialize.

O mundo de investimentos é um grande campeonato de pontos corridos, cuja data para terminar não existe. Por isso, não entre no mata-mata, porque você pode realmente “morrer”.

No longo prazo, prevalecem as melhores equipes e os investidores mais prudentes.

E SE MARADONA FOSSE UM INVESTIDOR

Nas finanças, talvez Maradona pudesse ser comparado a Michael Milken, considerado o criador dos junk bonds¹ (depois suavizado para high-yield bonds²), ou seja, os títulos de dívida de altíssimo rendimento como forma de recompensar o risco percebido.

Milken foi altamente influente nas finanças dos anos 80, permitindo a explosão dos chamados leveraged buyouts, isto é, comprar uma companhia através de uma dívida cuja garantia é a aquisição da própria companhia. 

Em uma história controversa, Milken foi acusado de extorsão e fraude do mercado de capitais, condenado a 10 anos de prisão.

O livro elogiado “Predator’s Ball: The Inside Story of Drexel Burnham and the Rise of the Junk Bond Raiders”, da jornalista americana Connie Bruck, dá mais detalhes sobre o que depois ficou conhecido como o período mais ganancioso de Wall Street, o que sempre me parece um exagero tendo em vista o que ocorreu nas três décadas seguintes.

Ou seja, a comparação entre Milken e Maradona se dá mais pela fama, já que a qualidade que admiramos em um jogador de futebol não é a mesma que buscamos em alguém para cuidar do nosso dinheiro.

Como diz um amigo: ninguém quer um contador criativo.

As diversas polêmicas em que Maradona se envolveu pouco importavam para o seu futebol dentro das quatro linhas, com raras exceções, tais como o uso de efedrina para perder peso rapidamente e jogar a Copa de 94, que ele alegou ter tomado sem saber e que resultou em sua eliminação do torneio (vale notar que vários suplementos esportivos continham efedrina nessa época), e a suspensão por 15 meses do Napoli devido ao uso de cocaína.

Já o que fez depois de aposentado foi uma decisão pessoal, cuja principal lástima pode ter sido a abreviação da sua própria vida.

Ao sair da prisão em 1993, Milken dedicou sua vida à filantropia, obtendo perdão presidencial em 2020.

Já nos corações argentinos, Maradona não chegou nem mesmo a ser condenado. Em algum momento, abusou de sua imortalidade e terminou por pagar seu preço derradeiro.

E isso basta para derramar as lágrimas de milhões de torcedores por todo o mundo.

Um abraço,

Leonardo Pontes

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