Cai hoje o último dominó?

Será que o Banco Central americano começa hoje a normalizar sua política monetária? O mundo olha com atenção

Cai hoje o último dominó?

Por Rodrigo Natali

Hoje teremos a reunião do FOMC, o Comitê de Mercado Aberto do Banco Central Americano (FED), quando será decidido o próximo passo na política monetária dos Estados Unidos.

Grande parte dessa decisão já é sabida: o FED tem uma capacidade muito grande se comunicar, deixando poucas surpresas para os anúncios depois dessas reuniões, algo que chegou a ser elevado a quase uma ciência pelo atual presidente da instituição, Jerome Powell, fazendo com que os mercados quase não oscilem e efetivamente derrubando a volatilidade e o risco percebido nos mercados, o que cria uma pressão positiva e altista nos preços dos ativos financeiros.

Afinal, não é à toa que as ações americanas fazem recordes seguidos de recordes. Nesse sentido, não está em discussão se os juros irão subir, ou se teremos mudanças na política cambial. O que está na mesa é apenas uma coisa: se o FED irá começar a reduzir o ritmo de seu programa de compra de ativos no mercado aberto.

Hoje ele compra 120 bilhões de dólares por mês, direcionando 80 bilhões para os títulos públicos e 40 bilhões para títulos privados lastreados em empréstimos imobiliários de baixo risco. Depois de diversos sinais e entrevistas de membros da diretoria, ficou claro, também, que a redução no ritmo deverá começar na ordem de 15 bilhões por mês, reduzindo o total de compras mensais para 105 bilhões.

O plano é com o tempo ir diminuindo esse número até o final do ano que vem. Notem que durante esse tempo todo o FED vai continuar a comprar ativos, enquanto ainda mantém os juros a zero, algo que já deixou claro que irá passar a normalizar apenas a partir de 2023.

E muito além do horizonte, vai-se o dia que irão passar a vender esses títulos que hoje estão acumulando, algo que muitos analistas acreditam ser quase impossível: o FED simplesmente deve deixar os títulos no seu balanço e esperar eles vencerem.

Assim, nos encontramos com 3 opções para hoje:

  1.  FOMC anuncia que a redução nas compras (tapering) começa hoje e passa a valer a partir de agora;

  2. O FOMC anuncia o tapering hoje, mas que só passará a vale a partir do mês que vem ou da próxima reunião ou;

  3. Ele posterga a decisão para a próxima reunião.

Acreditamos mais na opção 2, mas sempre é possível a 3, dado que o Powell já disse várias vezes que prefere pecar pelo excesso de zelo com os estímulos, mesmo em face de uma inflação mais alta.

E o que significa o começo da tapering, para nós, na prática? Significa que uma quantidade muito relevante de dólares que hoje em dia está sendo impresso pelo FED vai passar a diminuir. É possível prever isso através de uma boa comunicação como temos visto, mas na prática, quando algo assim começa, os efeitos normalmente fogem um pouco ao controle e surpresas sempre ocorrem.

Por mais que saibamos que deve vir pela frente, é muito difícil precificar 100% o efeito de um fluxo de recursos, porque ele efetivamente tem impacto quando entra ou sai do mercado e num mundo com menos dólares sendo impressos, entramos num novo capítulo macroeconômico para o globo, um no qual o apoio máximo à economia americana e contra o dólar terá ficado para trás.

Por mais que saibamos que algo vai ocorrer, é sempre diferente quando ocorre. O mundo se acostumou com os atuais níveis de estímulo, com as doses diárias e semanais que esse fluxo sem precedentes teve nas economias globais, não só os Estados Unidos.

É como se soubéssemos que daqui a duas semanas teríamos que parar de tomar café ou abandonar um vício de longa data: essa noção nos ajuda a nos preparar, mas não torna a transição mais fácil.

Acreditamos que nesse novo mundo poderemos ter mais riscos, e nesse sentido, voltamos a adotar nossa postura mais defensiva. O dólar tem tudo para aumentar sua volatilidade e devemos voltar a ver certos movimentos que não testemunhávamos faz algum tempo.

Correções se tornam mais prováveis, críticas ao FED e altas no dólar também. Mas de certa forma, isso é algo positivo. Já estava mais do que na hora de começarmos esse movimento, afinal, o FED foi o primeiro BC a pisar no acelerador depois do começo da pandemia e está sendo o último a tirar, um pouco, o pé.

O livre mercado agradece.



PS: Nesta quinta-feira, dia 04 de novembro, às 18h30 (horário de Brasília), Pedro Cerize, Marcelo Cerize e Rodrigo Natali convidam ninguém mais, ninguém menos que Ivan Sant'Anna para o "Papo de Trader" da primeira semana de novembro.

Ivan vem a São Paulo depois de quase dois anos para conversar com o time da inv sobre as décadas que passou no coração do mercado. Afinal, foi trader de 1958 até 1995 e trabalhou nos mercados financeiros brasileiro e americano como corretor das bolsas do Rio, Nova Iorque e Chicago.

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Conheça o responsável por esta edição:

Rodrigo Natali

Diretor de Estratégia

Rodrigo Natali tem graduação e MBA pela FGV. É especialista em câmbio e macroeconomia, tem 25 anos de experiência no mercado financeiro, tendo passado por diversas instituições nacionais e internacionais, onde exerceu a profissão de trader e gestor de fundos de investimento multimercado.

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